O Salvador

15-05-2016 17:36

    Esta é uma palavra enigmática. Primeiro, porque se supormos que existe um salvador é porque precisamos de salvação. Se precisamos de salvação é porque estamos perdidos, presos, oprimidos, engaiolados de alguma forma. É possível supor, também, que a necessidade de existir um salvador tem a ver com algo ou alguém que tolheu nossa liberdade e, assim, a esperança recai na existência de um salvador. Começamos este artigo perguntando: existe um Salvador? Podemos fazer outra pergunta que leva a questão para outra perspectiva ainda mais íntima e profunda: a existência de um Salvador é necessária?

    A tradição cristã coloca Jesus Cristo como Salvador da humanidade. Para alguns, só o fato de fazer algum questionamento sobre este assunto já é um sacrilégio. Para outras pessoas, a vida deste Senhor é motivo de pesquisa científica e filosófica. Em outras culturas, as pessoas o veem como um ilustre desconhecido.  Assim podemos concluir que este nome não é uma unanimidade em toda a humanidade.

    Nossa pesquisa indica que cada cultura tem o seu Salvador particular. O Salvador é uma figura que adquire certos aspectos relevantes e cruciais para que uma população compartilhe e desenvolva afinidade de pensamentos e sentimentos. Uma palavra que resume este movimento é a Virtude. Assim, respondemos a segunda pergunta do início do nosso artigo: Salvador é uma figura necessária para populações humanas que necessitam desenvolver virtudes baseadas em um modelo externo, idealizado.

    Cada cultura criou o seu Salvador com o objetivo de indicar um caminho na busca espiritual, portanto, Ele é um modelo a seguir. O Salvador é aquele que encontra seu destino final, se une ao espírito, ao sagrado, aquilo que foge aos padrões convencionais humanos, se torna uno com Deus, porém, permanece humano ao mesmo tempo. Une aspectos do que vemos como material com aquilo que interpretamos como espiritual. É um humano (homem ou mulher) completo, realizado, divinizado.

    Na cultura Egípcia, por exemplo, vemos a figura mitológica de Hórus, o Homem-Deus, nascido de Osíris e Ísis, que mata Seth, irmão de seu Pai. Assim como Hórus personifica a figura das virtudes, pois carrega em suas mãos os símbolos da vida, da morte e da fertilidade, Seth, por sua vez, representa o inverso: a maldade, a perversidade, a vaidade, etc. Reza a lenda que para Hórus torna-se rei do Egito foi necessário eliminar seus aspectos negativos, inferiores, mesquinhos, os chamados demônios vermelhos de Seth, e como consequência, desenvolver suas virtudes. A mitologia Egípcia representa este momento como a fusão de Hórus com Rá, o Deus Sol. Uma conclusão óbvia é que o Salvador Egípcio é um representante Solar entre os humanos, portanto, um Homem-Deus iluminado.

    Mesmo não levando o título de Salvador, Buda, o Sr. Siddhartha Gautama, percorreu um caminho similar. Sabemos que o termo Buda quer dizer “o iluminado” e não é uma atribuição específica do Sr. Gautama, mas pode designar qualquer pessoa que chegue ao estado de iluminação plena, ou seja, fique livre das ilusões deste mundo. Segundo a tradição budista, o Sr. Gautama, após dias de jejum e em estado de meditação profunda, enfrentou Mara, um demônio perverso, sentado embaixo de uma árvore chamada Bodhi. Por fim, Buda vence o desafio de Mara ao eliminar do seu interior, aspectos negativos, inferiores, conquistando assim, a iluminação interior. Em uma análise simples, aquele que se salva torna-se um Salvador. Ao salvar a si mesmo, o indivíduo torna-se um iluminado, alguém que tem luz própria, uma estrela, um Sol, entre seus semelhantes.

    Para os Astecas, o Salvador é Quetzalcoatl, Deus da sabedoria, da vida, do conhecimento, do alvorecer, do padrão, da fertilidade, dos ventos e da luz, o governador do Oeste. Este nome aparece também em outras culturas mesoamericanas, tais como: Tolteca, Maia, Olmeca. Quetzalcoatl representa as energias telúricas que ascendem, daí a sua representação como uma serpente emplumada. Neste sentido, representa a vida, a abundância da vegetação, o alimento físico e o espiritual para o povo que o cultua ou o indivíduo que tenta uma ascensão espiritual. Fica claro que o Salvador representa o melhor de uma cultura, uma idealização que colabora para que aqueles que querem e podem seguir pelo caminho que ele trilhou, realizem coisas similares às que Ele realizou.

    Krishna, no hinduísmo, é um avatar ou manifestação de Brahma, Vishnu e Shiva, os três nomes da divindade. Considerado o oitavo avatar de Vishnu, é uma das divindades mais cultuadas em toda a Índia. É interessante observar que a palavra Krishna se assemelha sonoramente a Cristo. Também é válido observar a semelhança das representações do Pai, Filho e Espirito Santo do cristianismo com Brahma, Vishnu e Shiva do hinduísmo. O termo avatar, dentro desta cultura, é usado para representar um professor, um emissário, um porta-voz de Brahma, o Deus máximo nesta religião. Este fato produz semelhança entre o hinduísmo e o cristianismo, já que Jesus Cristo é um representante humano do “Pai que está no Céu”, em outras palavras, Deus.

    Percebemos vários pontos similares entre as culturas e, é claro, poderíamos descrever muitos outros aspectos convergentes que reforçariam nossa ideia. No entanto, não é este nosso objetivo; fazemos este retrospecto apenas para argumentar que a existência de um Salvador, um ser místico-filosófico ideal, em qualquer cultura que analisemos, é uma necessidade básica do ser humano motivada por um elemento comum dentro de nós, este sim é o objetivo deste artigo.

    Para analisarmos este elemento comum, seguimos com alguns questionamentos: por que temos a necessidade de criar um personagem místico-filosófico ideal, um ser perfeito que é entendido e aceito como Salvador? Por que precisamos deste personagem humano/divino idealizado que, sendo perfeito, é um exemplo a seguir?

    Para responder a estas perguntas, vamos começar do começo, bem do começo. Num dia do ano de 2003, ano que completei 33 anos de idade, tive uma experiência transcendental, algo que poderíamos classificar como espiritual, já que foge totalmente das experiências do cotidiano. Minha consciência, por meio de meditação, foi transportada para uma região extremamente distante deste planeta que chamamos de Terra, algo como do outro lado do Universo. Pude ver claramente um superaglomerado de galáxias, em seguida uma Galáxia muito brilhante onde prevaleciam vários tons de violeta, por fim, uma estrela emitindo um tom violeta intenso. Vi vários planetas orbitando esta estrela e fui direcionado para o quarto planeta em órbita, tendo como referência a estrela. Ao chegar à superfície, observei que se tratava de um lugar muito familiar. Pude reconhecê-lo imediatamente como minha origem, meu lar primordial; senti-me como uma criança que brinca em um parque de diversões.

    O Ambiente deste planeta era extremamente agradável; só existia alegria no ar. Em tudo predominava a cor violeta, até no céu e nuvens prevalecia tons de lilás. Nenhum pensamento passava na mente. Cada segundo ali era uma eternidade. Ao meu lado brincavam outras crianças. Algo que me chamou a atenção foi o fato de que todas as crianças que pude ver eram meninas. Percebi que ocupava também o corpo de uma menininha loira e, simultaneamente, a via de outro ângulo, flutuando do lado de fora do corpo. Quando percebia as coisas a partir do corpo da menina, me sentia pequena, inocente; só o que me interessava era brincar com as outras crianças. Percebendo o cenário de fora, flutuando ao lado do corpo dela, via tudo como um observador experiente. Pude constatar que aquilo era uma memória viva das minhas primeiras experiências como Ser que Sou. Os místicos atribuem um nome para esta região dimensional da nossa criação ou local de nossa origem ancestral: eles o chamam de Absoluto.

    Após muito brincar ocupando aquele corpo de criança, percebi em um momento mágico e inexplicável que algo mais poderia existir além da alegria e brincadeiras naquele planeta. Assim, fui procurar nosso supervisor, um Ser alto, bonito e radiante como o sol. Ele era muito alto em relação a mim, quando o observava a partir do corpo de menina, porém para mim como observador experiente fora do corpo, seu tamanho era de um homem normal. Ele vestia uma túnica branca e seu rosto era suave e resplandecente, apresentando um leve sorriso. Ele observava com muita atenção todas as crianças brincando ao seu redor. Quando me aproximei, ele se virou e me olhou fixamente sem dizer uma palavra; existia uma plenitude de sabedoria e amor em seu olhar que suplantava toda e qualquer condição humana conhecida. Olhei fixamente em seus olhos e pude perceber que, do ponto de vista da criança, minha altura era próxima a dos seus joelhos. Pude deduzir, como observador da cena, que aquele corpo de menina tinha aproximadamente uns três anos de idade, se adotássemos o nosso padrão humano como referência. Aquele olhar durou só alguns instantes, porém, dentro da perspectiva da criança, era uma eternidade. O tempo, como o conhecemos aqui em nosso planeta, não parecia ter nenhum significado naquele planeta ou dimensão. Então, aquela menininha fez a grande pergunta:

    - É só isto que existe?

    Percebi, depois de uma estada de muitas brincadeiras, diversão e alegrias infinitas naquele espaço, aparentemente fora do tempo, que aquela menina desperta a consciência para algo novo, algo como acordar para uma nova realidade, ou seja, investigar o que existe além do que é observável e sensível naquele ambiente em que ela se encontra. O Ser que a supervisiona, percebendo este diferencial, descortina um universo de possibilidades. Percebo que o céu daquele planeta, que resplandecia em um tom lilás, bem claro, se transforma rapidamente em uma visão de uma noite estrelada. Pude perceber e sentir infinitas possibilidades de novas experiências em cada uma daquelas estrelas. As estrelas literalmente me convidavam para conhecê-las. Enquanto as outras crianças brincavam como se nada estivesse acontecendo, eu, naquela pequenina forma, contemplava a vastidão do Universo a minha frente.

    Como observador, fora do corpo, pude evidenciar meu próprio despertar existencial. Antes de procurar o supervisor e fazer aquela pergunta, nada mudava naquele cenário; só o que existia eram brincadeiras, alegria e felicidade eterna, porém, quando fiz a pergunta foi o momento mágico e inexplicável em que olhei para mim mesmo como Ser que Sou e adquiri consciência de mim mesmo. Antes, existia, mas não tinha consciência da minha própria individualidade, era como uma gota de água no oceano. Ao despertar, me tornei um indivíduo, neste momento, nasce o “EU”. Cheguei à conclusão de que o Absoluto é, portanto, o local de nascimento e amadurecimento das essências até que elas despertem para algo mais: para a individualidade.

    O Ser, que chamo aqui de Supervisor, esboçou um leve sorriso, estendeu o braço para o céu estrelado e disse:

    - Escolha...

    Olhei atentamente para as estrelas do céu, vi cores, padrões de vibração, sentimentos e pensamentos, enormes possibilidades de experiências. As estrelas me chamavam de forma similar a uma mãe que abre os braços para a filha, e diz: “Vem, minha criança, eu lhe acolho com todo o meu amor”. Contemplei este momento em estado de graça e uma estrela brilhou mais forte, formando um feixe de luz entre nós. Respondi ao Supervisor apontando o dedo na direção do facho de luz:

    - Aquela...

    Imediatamente entrei no facho de luz e viajei até a estrela que me ofereceu um lar para minha próxima etapa de desenvolvimento. Agora era um indivíduo, um Ser consciente de mim mesmo, porém ainda era uma criança. Percebi que poderia ficar um período aprendendo naquela estrela e depois ir para outra, outra e assim vasculhar o universo. Percebi que este era o sentido primordial do despertar: adquirir conhecimento, experiência, sabedoria, poder, desenvolver-se em todos os sentidos. Pois bem, este é o primeiro presente do criador para nós, criaturas. Aquele a quem chamamos Deus, Pai, Criador, Espírito, Mônada, de fato o nome não importa, nos presenteia com a capacidade de conhecer toda a sua criação e Ser como Ele, e Ser Ele. Como crianças que somos ao sair do Absoluto, a maternidade das essências, não temos experiência para saber que caminho percorrer para chegar a este objetivo: Ser como Deus, Ser um com Ele, Ser Ele. Então, diante da nossa infantil inexperiência, criamos a figura do Salvador, o nosso guia espiritual, aquele que nos conduz durante todas as infinitas experiências dentro deste vasto universo e que, inevitavelmente, proporciona o retorno ao lar, ao Absoluto.

    Como observador experiente, vendo, sentindo, vivendo e revivendo todas estas cenas extraordinárias, me vi nos olhos do Supervisor, o Ser que cuida das crianças-essências na maternidade cósmica e lá estava eu, vivendo como Supervisor. Portanto, nós somos aquele que descortina o universo e oferece infinitas possibilidades de experiências, e somos, ao mesmo tempo, a criança-essência que sai em sua jornada rumo ao desconhecido. A criança-essência cria a figura do Salvador para que ela saiba como retornar ao seu verdadeiro lar quando se sentir perdida, sozinha, desamparada, esquecida pelo criador, algo totalmente impossível de acontecer de fato, porém, neste planeta em especial, a nossa Terra, é a lição a ser aprendida, a experiência a ser vivida. A experiência aqui proposta pelo nosso planeta Terra, sob a supervisão e determinação da nossa Estrela, o Sol, é se despir de toda espiritualidade e ir ao ponto mais profundo da materialidade. Este processo funciona como uma mola, um elástico que, esticado ao limite, produz o retorno. O processo acontece de forma tão intensa que projeta nossa consciência dos níveis mais profundos da materialidade para os níveis mais altos da espiritualidade, assim retornamos ao lar, ao Absoluto e contemplamos, a nós mesmos como criadores e criaturas. Neste precioso momento, a figura do Salvador se desfaz, pois cumpriu seu papel, realizou magnificamente o seu propósito. Nós nos tornamos um; não há separação. De fato, nunca houve e nunca haverá. Aquilo que parecia tão real, a ilusão criada de que nós somos indivíduos separados do criador se desfaz totalmente e voltamos a nos sentir como a criança primordial; tudo é belo, divertido, só existe alegria.

    Este retorno ao lar nos fortalece e nos capacita para uma nova etapa da experiência terrestre: a eliminação da ilusão chamada elemento denso ou ego. O elemento denso, em uma visão simples, é um feixe de memórias nas quais nos sentimos apartados do criador, uma ilusão do tempo, fortalecida pela experiência terrestre. Como já vivemos milhões de anos dentro desta ilusão, estamos programados para reagir de acordo com esta condição. Podemos observar na literatura atribuída aos grandes mestres espirituais da nossa história que é consenso, a necessidade de mudar, renascer, transformar-se para elevar-se espiritualmente. Segundo as tradições, Buda, jejuando e em meditação profunda, vence o demônio chamado Mara; Jesus se afasta e jejua no deserto e é tentado por Satanás, vencendo-o após 40 dias; Samael desafia seu próprio Lúcifer particular, falando-lhe cara a cara que o venceria; Hórus vence os demônios vermelhos de Seth; Hércules realiza os doze trabalhos, uma clara analogia às proezas realizadas em nosso interior quando nos propomos a percorrer este caminho; Jason, também herói grego, sai com os argonautas em busca do velo de ouro, rica alusão às virtudes e poderes do Ser, do Divino. Nossa história é rica em personagens que precisaram se reinventar, renascer, percorrer caminhos perigosos, realizar proezas em suas buscas espirituais, característica atribuída ao Salvador, ao Libertador.

    Concluímos este artigo ressaltando que a figura do Salvador é de extrema importância. Este arquétipo da perfeição nos conduz, inevitavelmente, ao nosso lar primordial, nossa origem essencial. Porém, ao viver e reviver em nosso íntimo a experiência da integração com o UM, Nós Mesmos, percebemos que a figura do Salvador deixa de ser algo externo e passa a ser algo íntimo, interno, nosso. Nós somos o Salvador de nós mesmos. Por fim, concluímos que a experiência terrestre nos torna mestre de nós mesmos, sábios de todo o processo e potencializados pela experiência, descobrimos que tudo o que vivemos foi cuidadosamente planejado, elaborado e criado para que percebamos a ilusão da separação, a ilusão do “EU” que, como descrevemos antes, começa e termina, na maternidade cósmica, o Absoluto.

 

12 de maio de 2016.

 

 

 

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